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Marina Silva: ‘É cada vez mais necessário integrar economia e ecologia’

01/06/2026 | 08:05
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FOTO: Denis Maciel/DGABC
FOTO: Denis Maciel/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


A ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima e pré-candidata ao Senado por São Paulo, Marina Silva (Rede), abordou temas centrais para o futuro do País, como a preservação dos mananciais e os desafios da segurança hídrica no Estado, em visita à sede do Diário na sexta-feira (29). A deputada federal alertou para a necessidade de proteger áreas estratégicas de abastecimento, como o Grande ABC, especialmente diante dos impactos das mudanças climáticas. Além das questões ambientais, Marina criticou a priva-tização de serviços essenciais e destacou a necessidade de preservar a soberania brasileira frente a interferências externas.

Nome: Maria Osmarina Marina da Silva Vaz de Lima

Aniversário: 8 de fevereiro

DGABC

Onde nasceu: Rio Branco, no Acre

Onde mora: Santos 

Formação: História e especialização em Psicopedagogia e Teoria Psicanalítica

Um lugar: Minha casa 

Time do coração: Palmeiras

Alguém que admira: Chico Mendes

Um livro: A Condição Humana, de Hannah Arendt

Uma música: Sorte, por Caetano Veloso e Gal Costa

Um filme: A Cor Púrpura (1985), de Steven Spielberg

Após mais de três anos à frente do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, qual o principal legado da sua gestão?

Reconstruir o ministério a partir do cenário de terra arrasada que encontramos foi um grande desafio, mas foi para isso que o povo brasileiro nos deu a felicidade de reeleger o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Encontramos os orçamentos da Pasta comprometidos, servidores desestimulados, submetidos a assédio e perseguição. Também identificamos instituições enfraquecidas e outras que haviam sido desmontadas. Ainda assim, conseguimos reconstruí-las e implementar novos mecanismos. Entre as políticas que reconstruímos, com certeza dar conta de controlar o desmatamento e a queimada é um ganho enorme. Reduzimos o desmatamento em 32% no País e 50% na Amazônia. Mas esse feito já dominávamos, sabíamos que íamos conseguir, porque foi o que desenvolvemos nos dois governos (anteriores) do presidente Lula. O grande desafio vem na agenda de implementar a política ambiental como transversal, não apenas como uma política setorial. O maior indicador disso era a criação de instrumentos econômicos que nos levassem à implementação de ações de desenvolvimento sustentável. Foi isso que conseguimos fazer, em parceria com o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), com quem criamos diversos instrumentos econômicos, como o Fundo Clima, que foi reativado e hoje soma R$ 350 bilhões destinados à agenda de desenvolvimento sustentável e transformação ecológica. Quando chegamos, o orçamento do fundo era de R$ 300 milhões. A principal marca dessa gestão é integrar economia e ecologia em uma mesma estratégia, por meio do plano de transformação ecológica, de modo que o enfrentamento dos problemas ambientais seja feito de forma estruturante.

A sra. falou sobre o risco de desabastecimento em São Paulo e apontou problemas no tratamento da questão desde a crise hídrica em 2014. Quais são, na sua perspectiva, as medidas prioritárias para enfrentar esse cenário?

O primeiro passo é acabar com a visão de que privatizar resolve o problema. A privatização não é a solução, especialmente quando se trata de serviços essenciais, como o abastecimento de água e a energia. Não se governa um Estado como São Paulo apenas por meio de privatizações, concessões e pedágios. É preciso ter visão estratégica. Os investimentos não são realizados de forma adequada, e o Sistema Cantareira pode colapsar. A Represa Billings continua altamente poluída, com graves problemas relacionados ao acúmulo de matéria orgânica, especialmente em períodos de chuvas intensas, o que reduz o oxigênio da água e compromete uma das áreas mais estratégicas para o abastecimento e o equilíbrio hídrico de São Paulo. Por isso, é necessário tratar recursos hídricos, energia, saneamento, saúde, educação e segurança como políticas de Estado. O Sistema Cantareira resulta de um processo histórico de décadas, mas hoje é insuficiente, pois vivemos sob os efeitos da mudança do clima. Dos 1.942 municípios suscetíveis a eventos climáticos extremos no Brasil, cerca de 150 estão em São Paulo. Sem uma política de adaptação e mitigação das mudanças climáticas, algo que governos negacionistas não implementam, não há tecnologia capaz de resolver o problema. Quando eles permitiram o desmatamento correr solto, não se preocuparam com as nascentes nem com as áreas de recarga. Isso prejudica todo o estoque de água, que é fundamental tanto para a geração de energia quanto para o abastecimento e para os processos produtivos do Estado.

O Grande ABC concentra áreas de mananciais estratégicas para o abastecimento da Região Metropolitana e enfrenta desafios ligados à ocupação urbana e à preservação ambiental. Como avalia o papel da região na agenda climática nacional?

Se não cuidarmos dos mananciais, podemos comprometer todo o sistema. Por isso, é fundamental impedir o avanço da especulação imobiliária sobre essas áreas e implementar políticas de restauração dos mananciais que ainda podem ser recuperados. Essa restauração envolve tanto o reflorestamento quanto a recuperação de matas ciliares e a proteção da Mata Atlântica, que é essencial e vem sendo recuperada, inclusive graças a um trabalho importante da sociedade brasileira, esforço da comunidade científica e de organizações da sociedade civil. Trata-se de uma região de grande adensamento populacional e é preciso considerar o risco que um colapso no abastecimento hídrico representaria para um Estado como São Paulo. Por isso, é cada vez mais necessário integrar economia e ecologia. Precisamos criar um novo marco legal de emergência climática, para que os municípios vulneráveis sejam tratados em situação de atenção permanente, e não apenas quando ocorrem desastres ambientais.

O Brasil registrou aumento nos casos de feminicídio e violência contra a mulher nos últimos anos. A sra. relaciona esse cenário ao déficit de representatividade feminina no Congresso. Como ampliar a presença das mulheres na política pode impactar essa realidade?

É um impacto muito grande porque nós temos apenas 18% de mulheres na Câmara dos Deputados e no Senado, mesmo sendo a maioria da população brasileira. Quando há mulheres nos parlamentos, os estudos mostram que isso melhora em mais de 27% as políticas voltadas para esse grupo. Quando existe um discurso de ódio contra as mulheres, estimulado por aqueles que ocupam os mais altos cargos da República, isso funciona como uma espécie de licença para o aumento dessa violência. É importante termos mulheres como deputadas, vereadoras, prefeitas, governadoras e vice-governadoras. E acho que o debate que está posto aqui em São Paulo pela candidatura do Fernando Haddad é muito interessante, porque temos duas mulheres (Marina e Simone Tebet – PSB) que podem disputar o Senado.

O deputado federal Guilherme Derrite (PP) criticou a sua pré-candidatura e a da ex-ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, ao Senado por São Paulo, argumentando que, “se fossem tão bem avaliadas, estariam disputando no próprio Estado”. Como a sra. responde a essa crítica?

É contraditório e são dois pesos e duas medidas porque ele não diz o mesmo sobre o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que veio do Rio de Janeiro. São Paulo é um Estado acolhedor e reúne pessoas de todo o País. Tenho uma relação histórica com o território; meu marido é paulista e desde 1979, quando cheguei aqui pela primeira vez com uma passagem apenas de ida para cuidar da minha saúde, fui acolhida e cuidada. Quando se é candidata à Presidência da República três vezes, o domicílio eleitoral é definido pelo local em que a pessoa está registrada. Agora é engraçado que, quando é um homem que vem de outro Estado para São Paulo, não há críticas, mas quando se trata de mulheres, como no meu caso e no da ex-ministra Simone Tebet, somos tratadas como forasteiras. Ainda bem que quem decide quem será eleito não são os adversários, mas sim o povo paulista, que já me concedeu um mandato de deputada federal (2023-2026) e me acolheu bem quando fui candidata à Presidência da República.

Como a sra. acredita que a população enxergará a articulação para que os Estados Unidos classifiquem as organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas?

Me assusta ver candidaturas e entrevistas que parecem, de forma subserviente, defender a entrega das riquezas brasileiras aos Estados Unidos, inclusive com movimentos bastante estranhos. Já prejudicaram o Brasil ao articular uma taxação de 50% sobre produtos brasileiros, afetando empresas e empregos. Se não fosse o presidente Lula, estaríamos em uma situação muito difícil, porque Eduardo Bolsonaro (PL) e Flávio Bolsonaro (PL) participaram dessa articulação, e agora há novamente movimentos que colocam em risco a soberania do País.<EM>O Brasil tem condições de combater a criminalidade, que precisa ser enfrentada com treinamento e equipamento para as polícias, dentro de uma visão de segurança que não se limita à força, mas que também inclui a criação de meios para prevenir a criminalidade na origem, em vez de apenas esperar por ações de lei e ordem dentro do País. Nós já sabemos aonde isso leva. Ainda tentam dizer que defendem os empresários e a agricultura brasileira. Quem não conhece o que ocorreu na Venezuela, onde se dizia combater o terrorismo enquanto havia interesse no petróleo? Aqui, há quem aponte interesses também em terras raras. Em 2022, foi necessária uma frente ampla para salvar a democracia. Agora, brasileiros e brasileiras, independentemente de serem de esquerda ou de direita, precisam novamente de uma frente ampla para proteger a soberania. Uma coisa são as divergências políticas, outra é colocar em risco os interesses do Brasil.




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