Raízes e resistência Colorismo hierarquiza tons e determina como população negra é tratada e lida socialmente
FOTO: Celso Luiz/DGABC

A discussão sobre a influência da tonalidade da pele nas experiências vividas por pessoas negras permanece intensa no Brasil. O colorismo, fenômeno que estabelece uma hierarquia social entre negros de diferentes tons de pele, continua a moldar relações, oportunidades e a percepção que cada indivíduo tem de si e dos outros nos ambientes que ocupa.
É nesse contexto que entra a análise da professora de letramento racial Simone Chinelato. Ela explica que o debate deve começar com uma compreensão básica: a classificação do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) considera tanto pretos quanto pardos como população negra. O Grande ABC, por exemplo, possui 40,5% da sua população (2,6 milhões de habitantes) de pretos e pardos, segundo dados do Censo 2022. No total, são 1.092.413 moradores nas sete cidades, sendo 886.249 pessoas que se consideram pardas e 206.164 pretas.
Simone destaca que a confusão atual sobre quem pode ou não se declarar negro decorre de leituras sociais que nem sempre correspondem à forma como a pessoa se vê. “Precisamos entender que, quando ignoramos outros fenótipos e olhamos só para o tom de pele, a sociedade vê pessoas de pele mais clara como mais integradas ou aceitas em certos contextos sociais. E essa leitura molda trajetórias”, diz.
Segundo a especialista, pessoas de pele clara podem ter “acesso facilitado” a alguns espaços, mas isso não se traduz em privilégio. Ela reforça que o colorismo é estrutural e precisa ser discutido de maneira pedagógica, sem cair em disputas internas. “O tom de pele mais claro não tira ninguém da experiência do racismo. Só facilita um pouco o acesso, mas todo o resto continua sistematicamente negado”, afirma.
A professora de Diversidade Cultural e Educomunicação: a Cultura Africana na ECA (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), Dayana Melo, explica que existe diferença entre autodeclaração e percepção social, a primeira diz respeito a como a pessoa se reconhece racialmente, enquanto a segunda corresponde à forma como a sociedade lê e classifica esse corpo.
“No Brasil, essa diferença é atravessada por uma tensão histórica marcada pela ideologia do branqueamento e pelos eufemismos que afastam as pessoas da sua negritude. Uma pesquisa do IBGE realizada em 1998 mostrou isso de forma marcante ao registrar cerca de 136 termos diferentes usados pelas pessoas para definir cor ou raça, revelando um paradoxo entre a multiplicidade de categorias e uma estrutura racial muito rígida”, destaca a docente, que também ministra aulas de Gênero, Raça e Tecnologias da Comunicação no programa de pós-graduação da universidade.
Apesar disso, nos últimos anos, devido à mobilização política e ao trabalho educativo do movimento negro brasileiro, esse cenário vem mudando, conforme ressalta Dayana. Exemplo disso é que o Censo 2022 mostrou que pretos e pardos somam 55,5% da população, revelando a maioria do País estatisticamente negra e evidenciando um processo crescente de afirmação da negritude. Na região, apesar da maior parte da população se autodeclarar branca (58,2%), o número de pessoas que se autodeclaram pretas ou pardas cresceu 21,9% em 12 anos. No Censo de 2010 eram 896.064 e em 2022 ultrapassou 1 milhão.
Os relatos revelam impactos que começam ainda na infância e se estendem para ambientes de estudo, trabalho, lazer e até para a construção subjetiva de quem cada pessoa entende ser. No caso da cirurgiã-dentista Carolina Militani, 26 anos, de Santo André, essa trajetória começa em casa, um ambiente onde ser negra nunca foi exceção. O acolhimento doméstico, porém, contrastou cedo com o mundo exterior.
As diferenças de tratamento entre pessoas negras de tons distintos ficaram mais evidentes com o tempo. Ela observa discrepâncias em ambientes de trabalho: “Pessoas de pele clara são mais facilmente contratadas para cargos de atendimento, enquanto as retintas são direcionadas para funções operacionais, mesmo com a mesma qualificação.”
Construir a identidade racial diante dessas leituras sociais, diz ela, é um processo contínuo. “É um caminho de consciência, cura e afirmação. O colorismo cria camadas na negritude, e é preciso entender onde você está dentro desse movimento, reconhecendo vulnerabilidades ou privilégios para gerar consciência e respeito, não competição”, explica Carolina.
A professora universitária e psicóloga Ivete de Souza Yavo, 57, de São Caetano, diz que essa diferença de tratamento aparece desde criança. “Era considerada a melhor aluna da sala, mas a menina escolhida para acompanhar a professora era sempre a colega branca, de olhos verdes”, relembra. Na vida adulta, episódios semelhantes se repetem, como quando fui confundida com funcionária de limpeza em um hótel ou quando fui abordada pela polícia”, pontua.
Se para mulheres de pele retinta o racismo aparece de forma direta, entre pessoas negras de pele clara o não reconhecimento costuma ser o primeiro obstáculo. É o caso de Witor Augusto Lima da Silva, 23, social media de São Bernardo, que só se entendeu negro aos 21.
O jovem estudou desde pequeno em ambiente majoritariamente branco e afirma que raça não era debatido em casa. A percepção mudou quando conviveu com colegas pretos de pele retinta durante um curso profissionalizante. “Falei que era o ‘único branquinho’ da sala. Eles riram: ‘Onde você é branco?”, lembra.
A partir dali, vieram outras situações que o fizeram rever sua posição social: questionamentos sobre seu cabelo crespo, sobre sua identidade racial e sobre a validade de sua autodeclaração. “Circulava em dois mundos sem ser visto como parte completa de nenhum deles.”
A professora de Letramento Racial, Simone Chinelato, avalia que o vocabulário é um dos campos onde a sociedade ainda precisa avançar. Segundo ela, a revisão de expressões com origem racista faz parte de um processo de desconstrução que exige tempo, trabalho e disposição para mudar hábitos enraizados. “Ainda há quem ache que não podemos dizer mais nada, mas não é isso. Podemos falar, desde que o vocabulário seja justo”, afirma.
Para a especialista, o letramento racial tem papel central nesse processo. “É tarefa permanente de quem ensina e oferece ferramentas para promover esse ajuste na linguagem. Ela precisa ser tão justa quanto os demais comportamentos”, diz. Por isso, considera essencial explicar por que certas expressões não devem mais ser utilizadas, dada a carga histórica violenta que carregam.
Simone destaca que essas palavras raramente aparecem associadas a situações positivas. “Ninguém usa esses termos quando quer dizer algo agradável. Usam quando querem ofender ou fazer referência a algo ruim, indesejado, sujo, mal aos olhos de quem fala”, afirma.
Para ela, o problema não está apenas em repetir expressões racistas, mas no contexto em que são acionadas para reforçar significados negativos. Alguns exemplos são “Denegrir”, “Humor negro”, “Inveja branca”, “Ovelha negra”, “Da cor do pecado”, entre outras frases e palavras.
A especialista resume o processo como um exercício constante de desconstrução e reconstrução. “Costumo dizer que é se despir de pré-conceitos e se vestir de conceitos de quem quer construir uma sociedade igualitária em todos os sentidos”, afirma.
“Muita gente diz que não teve intenção. Eu acredito, porque o racismo é estrutural e estruturante. Ele organiza relações sociais. É preciso entrar nesse debate com sabedoria e provocação: ‘Você não sabia? Deixa eu te explicar’. São expressões que devem ser abandonadas’’, conclui.
Essa é a segunda reportagem da série em celebração ao Dia da Consciência Negra, comemorado na quinta-feira (20). A primeira matéria está disponível no site do Diário (www.dgabc.com.br)
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