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Mauá se desencanta e refreia interesse por disputa eleitoral

24/01/2005 | 14:44
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 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


A democracia política é a maior vítima da intervenção da Justiça Eleitoral concebida pressupostamente para impedir abusos dos candidatos e valorizar o voto. A conclusão está nos números detectados pelo Instituto Brasmarket a pedido do Diário e envolve os efeitos da trombose administrativa em que se transformou a disputa pela Prefeitura de Mauá. Nada menos que 40,7% dos eleitores não saberiam em quem votar se suposto segundo turno envolvendo os finalistas Márcio Chaves (PT) e Leonel Damo (PV) fosse realizado nesta semana. A proporção é quatro vezes maior que o total de votos em branco, nulos e abstenções no primeiro turno, em 3 de outubro.

A Justiça Eleitoral entrou em campo depois que Márcio Chaves ganhou no primeiro turno a disputa com Leonel Damo. Sob a alegação de que Márcio Chaves teria se utilizado da máquina pública durante o período eleitoral, por meio do chamado Túnel do Tempo, as três instâncias da Justiça Eleitoral, em Mauá, no Estado e em nível federal foram envolvidas na cassação da candidatura do petista no segundo turno. Márcio Chaves reagiu com força-tarefa de especialistas em legislação eleitoral e, em São Paulo, reverteu a derrota que, entretanto, foi reinstalada na seqüência pelo Tribunal Superior Eleitoral. Mas o jogo não terminou porque Márcio Chaves recorreu àquela instância eleitoral, que ainda não se pronunciou.

Como o festival de recursos segue na Justiça Eleitoral e pode até mesmo desdobrar-se no Supremo Tribunal Federal, o vereador Diniz Lopes, eleito presidente da Câmara, assumiu o posto de titular do Paço Municipal. A Lei Orgânica do Município prevê que Diniz Lopes ocuparia o cargo por 90 dias, mas a Constituição Federal estica o prazo até que a situação jurídica seja definitivamente resolvida.

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Segredo dos votos – Embora disponha dos dados, o Diário prefere não revelar o resultado de intenção de votos do Instituto Brasmarket em eventual segundo turno entre Leonel Damo e Márcio Chaves. A explicação é simples: qualquer numerologia de tendência de votos que venha a ser publicada sem que se tenha a definição da eventual data de suposto segundo turno poderia provocar turbulência na governabilidade do prefeito interino Diniz Lopes.

O Instituto Brasmarket ouviu 400 eleitores em Mauá na semana passada. No mesmo e amplo questionário respondido em toda a geografia do Município e que levou em conta a densidade ocupacional dos bairros, os pesquisadores do Instituto Brasmarket decodificaram a auto-estima da população de Mauá. Os resultados dessa inédita sondagem foram apresentados na edição de domingo deste Diário. Apenas 27,3% dos moradores de Mauá continuariam no Município caso gozassem de melhores condições financeiras. Os demais formam a maioria que não têm bem-querer por Mauá. O resultado contrasta acentuadamente com os números de São Caetano, onde 89,7% dos moradores não trocariam de endereço.

Seria exagero correlacionar as complicações eleitorais ao malmequer de Mauá. As complexidades sociais e econômicas de um Município que conheceu rápida ocupação populacional são mais importantes na consolidação de motivos que colocam os moradores muito aquém do sentimento preservacionista de São Caetano. Entretanto, na mesma intensidade de malquerer está o desencanto dos eleitores de Mauá depois que, independentente de juízo de valor sobre o caso envolvendo Márcio Chaves, o processo eleitoral foi deslocado das urnas para tribunais dialéticos e semânticos na apreciação de recursos.

São 28,9% os eleitores que responderam ao Instituto Brasmarket que não decidiram ainda em quem votar num eventual segundo turno entre Márcio Chaves e Leonel Damo.

Mais de 100 mil – Quando se adicionam 11,8% que disseram que não votarão em nenhum deles, anulará o voto ou votará em branco, chega-se a 40,7%. Isso significam 103.896 votos. É muito mais que os 6.585 votos em branco e os 16.568 em branco ao final do primeiro turno, em 3 de outubro. Os 22.968 votos inutilizados significaram ao final do primeiro turno apenas 9,06% dos eleitores inscritos em Mauá. Numa conta suplementar, considerando-se apenas os 223.273 eleitores que foram às urnas, ou 88,43% do total, o pedaço de votos nulos e brancos chega a 10,36%. Ou seja: a algazarra legislativo-eleitoral que quebrou o ciclo de transmissão do cargo de prefeito titular em Mauá em janeiro último está custando desgaste à democracia.

O Instituto Brasmarket também fez a seguinte pergunta aos eleitores de Mauá: "Qual dos candidatos ou lideranças políticas da cidade você considera que está por trás ou que é o maior responsável pela cassação da candidatura do ex-vice-prefeito Márcio Chaves e da suspensão da eleição em Mauá?".

Na seqüência, uma nova pergunta procurou extrair dos entrevistados juízo de valor sobre os problemas eleitorais em Mauá, "se decorrem de motivos justos ou injustos".

Sobre a responsabilidade da cassação, a maioria de 53,0% não identifica personagem ou grupo, mas para 22,5% as digitais de Leonel Damo estão explícitas. O petista Márcio Chaves é apontado por 4,5% dos eleitores como responsável pela própria cassação. A lista de outros personagens da vida política que teriam influenciado a quebra do ritual democrático em Mauá é longa e de números rarefeitos. Inclui o ex-prefeito Oswaldo Dias, secretários municipais e vereadores.

Justa ou injusta? – Para 37,3% dos eleitores ouvidos pelo Instituto Brasmarket não foi possível caracterizar definição de justiça ou de injustiça na cassação de Márcio Chaves. Isso mostra que há enorme contingente eleitoral que poderá ser sensibilizado durante eventual campanha de segundo turno, tanto pelo petista quanto pelo verde. Ambos estão estatisticamente empatados na avaliação dos eleitores quanto ao desfecho da cassação: 25,7% consideram a medida judicial justa, contra 24,8% que definiram como injusta a transferência da disputa para o Judiciário. Outros 12,2% optaram por um quarto caminho: disseram que têm dúvidas sobre a lógica da medida.

Se os resultados da pesquisa do Instituto Brasmarket não retiram interrogações sobre o grau de influência da participação de Leonel Damo na empreitada que determinou o impedimento da disputa do segundo turno em Mauá, isso não significa que em suposto segundo turno entre os dois candidados a situação que se desencadeou não possa ser fortemente instrumentalizada pelo candidato petista.

Os resultados do Instituto Brasmarket podem levar o estafe de Márcio Chaves a planejar ações mais vigorosas de vitimização, algo muito temido pelos estrategistas de Leonel Damo. Eles fizeram o possível para escamotear participação do candidato nas pedras judiciais lançadas no caminho de Márcio Chaves.

A tática chegou ao ponto de exaustão quando Leonel Damo e seu grupo resolveram intervir explicitamente na odisséia extra-urnas, tanto no Tribunal Regional Eleitoral em São Paulo quando no Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília. Tito Costa, ex-prefeito de São Bernardo e um dos especialistas mais renomados na atividade, foi contratado para cuidar dos interesses de Leonel Damo.

Chaves atento – A expectativa da candidatura do petista Márcio Chaves está centrada em dois suportes. Seus articuladores acreditam, primeiro, na superação dos obstáculos legais com o reconhecimento de que houve excesso de zelo da Justiça Eleitoral em considerar o Túnel do Tempo transgressão do então vice-prefeito. Segundo, defendem que, superada essa etapa, massificariam na população de Mauá o conceito de que o grupo de Leonel Damo esteve todo o tempo dinamitando os pressupostos democráticos de disputas nas urnas, não nos tribunais.

Sejam quais forem os novos capítulos da sempre postergável finalização de uma novela que mantém a Prefeitura sob o comando de um vereador ligado ao grupo de Leonel Damo e sobre o qual já há indícios de divisões, os números do Instituto Brasmarket são cristalinos: a população de Mauá com motivos de sobra para expressar baixa-estima, também está desencantada com os rumos da política partidária local.

Por isso, o melhor mesmo nesse momento é não estimular possíveis novos problemas com o anúncio dos números reservados pela pesquisa do Instituto Brasmarket para Leonel Damo e Márcio Chaves. Um deles está na frente, fora da margem de empate estatístico. Seria Márcio Chaves que venceu o primeiro turno com 45,77% dos votos válidos, ou Leonel Damo com 39,63%? Os demais concorrentes ficaram literalmente com o resto.

Façam suas apostas, senhores e senhoras! Um consolo para quem continua sem eleições.




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